Sabemos que, durante séculos, o pergaminho esteve exposto na igreja, na sacristia principal, e que o bispo de Cremona, Dom Cesare Speciano, em visita ao santuário em 27 de abril de 1599, fê-lo transcrever como “documento oficial” da própria aparição e de tudo o que aconteceu em seguida, como as curas extraordinárias. A partir de 1932, o pergaminho foi colocado no aposento do bispo perto do santuário, mas dali foi retirado, e não está claro por quem, quando ou por quê.
Infelizmente, hoje não é possível submeter este artigo a uma análise paleográfica para deduzir uma datação mais certa, mesmo que um exame interno do conteúdo e do estilo possa ser feito.
Embora seja classificado como “antigo” pelos historiadores, [o escrito] não pode ser considerado contemporâneo da aparição. A quando, então, remonta o texto? A única coisa que se pode afirmar com certeza é: antes de 27 de abril de 1599, dia da visita pastoral de D. Speciano.
Não escapa a ninguém, no entanto, o valor substancial desta “memória”: o estilo da narrativa, a concentração máxima do texto no diálogo entre Maria e a vidente e nos “sinais” que caracterizam a aparição de 1432; as lágrimas e a dor da Madonna; a fonte que jorrou no lugar da aparição, sem acréscimos desnecessários ou ampliações de natureza devocional [i].
O sinal da água e o Evangelho
À sua maneira, a fonte dos milagres torna o Evangelho presente aqui e agora. As antigas testemunhas, desde o início, entenderam isso tão bem que “registraram” as curas com fraseologia evangélica:
- 10 de agosto de 1432. Stefano, filho de Gabriello di Zenalij, de Trevì (Treviglio), de quatro anos, nunca havia andado sozinho, como atestou sua mãe; mas, assim que foi lavado na fonte, caminhou seguro só com os pés e sem nenhum apoio.
O sinal da água acompanha a história do povo da Antiga e da Nova Aliança e caracteriza muitos santuários construídos em lugares onde a Mãe de Jesus apareceu. Não sem razão sua presença foi “decisiva” quando Cristo realizou o primeiro de seus sinais, transformando a água em vinho. Por meio da água, de fato, Ele nos curou o corpo e a alma. O pecado do mundo é lavado pela água e o sangue jorrados de seu Coração trespassado e, pelo dom do Espírito, são gerados para uma nova vida os que renascem na água do Batismo..
Quando os enfermos são levados à praça do santuário e passam pela fonte sagrada, suplicando a própria cura; quando as multidões acorrem em peregrinação a este lugar, buscando as fontes da graça não apenas material; quando a devoção leva os fiéis a pedir “qualquer coisa” a Jesus, interpondo a intercessão da Mãe (“Eles já não têm vinho!”) com a confiança de que ela o fará, por acaso estariam eles cedendo a uma fé sentimental e irracional, e refugiando-se numa oração de mero alívio?
Aqui Jesus passa de novo no meio da humanidade, trabalhando “com a força do Espírito” na fonte de água viva, sempre vivo, mesmo que presente de modo misterioso no sacramento da Eucaristia.
E quando, do encontro entre Cristo e a multidão, advêm graças de conversão dos corações e curas de enfermidades físicas, é ainda sempre através dos sinais e instrumentos da Encarnação de Cristo que se oferece — uma vez mais e como continuidade do “ano da graça do Senhor” — a possibilidade de alcançar, no Senhor Jesus, o dom único da graça de Deus.
.O sinal da água, porém, além de confirmar a credibilidade do testemunho de Joaneta, é a expressão do poder salvífico da graça de Deus, que atua por intercessão de Maria após a sua aparição.
- Joaneta então disse: “As pessoas não vão acreditar em mim”. A clementíssima Virgem respondeu: “Levanta-te, não temas. Relata o que te ordenei; e eu confirmarei tuas palavras com sinais tão grandes, que ninguém terá dúvidas de que disseste a verdade”. Tendo dito isso e após fazer o sinal da cruz em Joaneta, ela desapareceu a seus olhos.
Assim diz o texto do antigo relato. Os “sinais tão grandes” que confirmaram a mensagem são, portanto, a fonte nunca antes vista por ninguém e os doentes curados das enfermidades que sofriam.
Apelo evangélico à conversão
Se, ao longos dos séculos, sempre foram ilustradas de várias maneiras a história e as tradições, as devoções e as artes que tornaram famoso o santuário de Caravaggio, por mais surpreendente que possa parecer [sua história], a mensagem da aparição é ignorada quase de todos e, além disso, continua sem receber comentários.
É verdade que ela nos foi transmitida numa forma e num gênero literário que não são mais os de nossa cultura, mesmo a teológica. Mas o estranho é que, mesmo nos séculos passados, a atenção e a devoção despertadas pelo evento de 26 de maio de 1432 parecem ter se concentrado mais na “fonte dos milagres” que nas palavras de Nossa Senhora a Joaneta.
Quais palavras? Vamos escutá-las novamente numa tradução mais próxima possível do texto da antiga história “autorizada”, que nos foi transmitida pelos registros da visita pastoral de Dom Speciano:
- Ouve com atenção e tem isto em mente, pois quero que repitas sempre que puder com a boca ou faças dizer a outros isto [...]: Meu Filho altíssimo e todo-poderoso pretendia aniquilar esta terra por causa da iniquidade dos homens, porque cada dia mais eles só fazem o que é mau, e caem de pecado em pecado. Mas eu, por sete anos, implorei ao meu Filho para ter misericórdia dos pecados da humanidade. Quero, pois, que digas a todos e a cada um que jejuem a pão e água toda sexta-feira em honra do meu Filho.
Além do revestimento verbal e das expressões utilizadas, a mensagem em sua essência é a mesma — afinal não poderia ser outra — que ressoa do Antigo ao Novo Testamento, de um a outro testemunho profético concentrado no apelo de Jesus: “Convertei-vos e crede no Evangelho… Completou-se o tempo… O Reino de Deus está próximo”.
Portanto, para além do revestimento cultural e literário, a análise objetiva das palavras da aparição de Caravaggio, em sua substância e sobriedade, leva-nos a uma única mensagem: “Convertei-vos e crede no Evangelho”, quase como se a Mãe do Redentor quisesse aparecer aqui para repetir, naquela época e em todas as épocas, suas últimas palavras relatadas pelo evangelista João: “Fazei [tudo] o que Ele vos disser”.
Mesmo acompanhado de premonições e ameaças de castigos — o mesmo Filho de Deus quando veio entre os homens não deixa de falar profeticamente da “dureza de coração” e do julgamento iminente para os que não se convertem —, trata-se sempre de um apelo à conversão adornado com a promessa de uma misericórdia que desde já se concede ao pecador arrependido.
Tampouco deve ser tido como antiquado o apelo ao jejum e às práticas devocionais. A vida cristã, assim como a conversão contínua, é também penitência mortificadora; e a fé, sem prejuízo de sua pureza essencial, não se furta a exprimir-se na religiosidade que se reveste de formas variáveis de acordo com a diversificação das culturas e dos tempos.
Algumas pessoas temem que a importância atribuída, seja às mensagens da aparição de Nossa Senhora, seja à própria Virgem Maria como mensageira, seja a seus agraciados videntes, corra o risco de distorcer e obscurecer o papel central de Jesus Cristo e da Igreja, bem como de diminuir a necessidade de se crer no Evangelho na sua integridade radical, orientando as almas antes para verdades e revelações que não são necessárias para a salvação. Mas este é precisamente o elemento a distinguir as verdadeiras das falsas aparições: as aparições autênticas fazem reviver o Evangelho; a Virgem Maria e os santos nos conduzem a Deus e a seu enviado Jesus Cristo, o único salvador do gênero humano.
Não só no tempo de Jesus, mas também no tempo da Igreja — que é para nós o tempo atual —, a missão de preparar os homens para a vinda do Senhor continua a ser confiada à mãe de Cristo. Maria, figura típica da própria comunidade cristã, “profeta dos novos tempos”, é mãe com a Igreja, também na Igreja também da segunda vinda de Jesus na glória. Com a Igreja e na Igreja “peregrina sobre a terra”, Maria está inserida no povo de Deus conduzindo toda a humanidade ao encontro de Cristo.
O sábado da ação de graças
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“Quero que digas [a todos e a cada um]”, continua o velho relato, “[...] que, depois das vésperas, por devoção a mim, celebrem todos os sábados. Aquela metade do dia, eles devem dedicar a mim em ação de graças pelos muitos e grandes favores obtidos do meu Filho, por minha intercessão”.
Mesmo quando a Virgem aparece para pedir orações, o que continua a acontecer que seja diferente daquilo que se passou com a primeira geração de discípulos? “Todos eram assíduos e unânimes na oração, junto com algumas mulheres e com Maria, a mãe de Jesus, e com seus irmãos”. Um lugar onde rezar e celebrar o sábado em ação de graças àquela que intercedeu “por sete anos” não foi efetivamente pedido na aparição a Joaneta. Mas à comunidade de Caravaggio parecia que a construção de uma casa de oração, e de um lugar de acolhimento para doentes e peregrinos, seria o testemunho mais concreto de ação de graças pela graça recebida. Seus representantes pediram, pois, ao bispo que construísse uma igreja e um hospital: o evento da aparição florescia na oração e na caridade efetiva.
Por isso, para quem acolhe a mensagem da aparição em sua integridade e com suas consequências, o apelo à conversão é um convite à fé no Deus que salva, e a uma fé que transforme a vida. Não é evasão intimista em uma espiritualidade medrosa e pessimista; não se trata apenas de retorno a práticas religiosas, mas de paixão pela edificação da Igreja no mundo, de centralidade devolvida aos sofredores, aos doentes e aos pobres na casa de Deus e na comunidade humana.
O fruto do retorno a Deus e do amor ao próximo é a alegria, a festa. A “graça recebida” por intercessão de Maria exige precisamente isto: ação de graças; que não é, no entanto, um mero dever, mas uma alegria. No santuário de Caravaggio é impossível não cantar o Magnificat por “sua misericórdia [que] se estende, de geração em geração, sobre os que o temem”; é impossível não “fazer festa” pela descoberta de quem “estava perdido” e voltou à casa do Pai.
Se Maria, a mãe, junto com Jesus e os discípulos participarem das bodas, haverá “o vinho bom, que ficou guardado até agora”.
Notas
Omitimos nesta tradução dois subtítulos e seus respectivos conteúdos, que se concentravam mais nos aspectos políticos e geográficos do lugar que na aparição mariana propriamente dita (N.T.).